Segunda-feira, 16 de Março de 2009 |
Certo dia ele percebeu o poder imenso que as palavras tinham, como enganadoras podiam ser e o quão inútil era essa força toda que transbordavam. Mentir a uma criança, por exemplo, não era muito diferente de mentir a um adulto em finalidade, mas pela simples adição de gentileza nas frases conseguia moldar-se todo um ser.

Corriam já vários anos que ele vivia ali, e sempre sentiu que ali não era onde era suposto ter ido parar. Ocasionalmente pensava por que motivo teria ido parar àquele sítio e não ao ponto oposto do globo, que mecanismos estavam por detrás do seu colocamento naquele lugarejo. Havia um rio, pontes, patos, gansos, àrvores, fontes que deitavam fumo, casas velhas e rústicas como as pessoas que nelas viviam e muito silêncio, como se lentamente aquele ponto do mundo estivesse a morrer, numa morte que muitos apelidariam de santa. Santa certamente ele não a consideraria, para ele uma morte às cegas era o equivalente de Deus o vendar e o colocar em cima de uma mesa. Sempre Deus e sempre a pergunta de "porquê aqui?" e a conclusão era sempre a mesma: que as coisas não têm que ter algum sentido só porque pensamos que deveriam.

Uma noite viu uns viajantes num café e pela primeira vez percebeu que fora enganado. Ali diante dos seus olhos, numa dessas três pessoas estava aquele que ele era - fora, seria? Soube-o dentro de si e soube também que fora enganado e trocado com aquele homem, talvez para satisfazer algum desejo que de vida diferente, não se lembrava bem qual - se é que o desejo era seu, sequer - mas sabia que a sua vinda era arauta de que iria ser sacrificado naquela vida por engano.

Um dia achou-se perseguido e após as horas de luz fugiu de onde era escravizado, primeiro atravessando o jardim que era diminuto face à floresta que rastejava atrás da casa e olhando uma última vez para as portas de vidro desta. Nestas, pela luz do Sol cadente, viu o pequeno lago no centro do relvado e isso assustou-o, pois o lago era negro. Fugiu pela ruela que descia o monte, aqui com altos ciprestes, ali despido em fotos cinzas. Correu pela estrada abaixo e uma casa de santos acolheu-o. O samaritano sabia a razão pela qual ele estava ali, sabia que a sua peregrinação começara. Saíndo pelas traseiras ele achou-se num local desconhecido. Sempre este sentimento de que não era ali que pertencia, que tinha havido um engano. Subiu uma nova floresta e quando deu por si viu pessoas numa caravana caminhando sobre a geada matinal.



Subitamente, tudo turvou e virou gris na sua visão. O demónio riu-se e rasgou o tecido da realidade, agarrando mais uma alma entre os seus dedos.
Publicada por Luís dos Santos Etiquetas: , ,

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